Les Visiteurs: o filme que TODO francês cita (e você pode finalmente entender)
Jean Reno e Christian Clavier, 1993. Comédia de viagem no tempo do medieval ao moderno. Cult absoluto, citado todos os dias na França — e linguisticamente um pesadelo divertido.
Existem filmes franceses. E existe Les Visiteurs, que é uma categoria à parte. Todo francês acima de 30 anos sabe diálogos inteiros de cor. As frases viraram parte do vocabulário cotidiano. Se você quer entender uma piada da casa de amigos franceses, esse filme é obrigatório.
O filme, em uma frase
Comédia de 1993 dirigida por Jean-Marie Poiré. Jean Reno é Godefroy de Montmirail, cavaleiro do século XII. Christian Clavier é Jacquouille la Fripouille, seu servo. Um feiticeiro erra a fórmula da viagem no tempo e os dois acabam projetados em 1992 — onde o castelo da família virou hotel de luxo gerido pela descendente direta de Godefroy.
Bilheteria França: 14 milhões de espectadores. Quase um quarto da população francesa viu no cinema. Para colocar em escala: nenhum filme brasileiro chega perto disso. Avatar fez 14 milhões na França também — mas com público mundial. Les Visiteurs fez tudo isso só com o público francês.
Por que virou marco cultural
O filme acertou três pontos ao mesmo tempo: uma piada brilhante (a viagem temporal invertida — o medieval surpreso com o moderno), uma escrita afiada (cada cena tem uma frase memorável), e uma química perfeita entre Reno e Clavier.
O filme também acerta numa coisa cultural: ele toca no orgulho-vergonha francês com a história nacional. O cavaleiro vê o Coca-Cola, a TV, o telefone, o carro — e fica perplexo. Os espectadores reconhecem a maravilha da modernidade ao mesmo tempo que riem do absurdo. É uma comédia que celebra o progresso e zomba dele.
Citações que viraram de uso diário: « Okay » (modo de Jacquouille reagir a tudo de moderno), « Que cette messagère du diable retourne en enfer ! », « Ils sont fous, ces Romains ».
O francês de Les Visiteurs: avisar é prevenir
Esse não é um filme para aprender francês. É um filme para entender o francês depois de já saber francês. Por quê?
Linguagem medieval pastiche. Godefroy e Jacquouille falam um francês inventado que mistura francês antigo (formas do século XII), expressões medievais reconstruídas e invenções dos roteiristas. Nenhum francês de hoje fala assim — e nenhum francês do século XII também.
Gírias modernas. Os personagens do tempo presente usam gírias urbanas dos anos 90 (algumas hoje datadas). Algumas referencias culturais precisam de explicação para um francês de hoje, quanto mais para um brasileiro.
Trocadilhos intraduzíveis. Muitas piadas são jogos de palavras entre o francês medieval e moderno. Em legenda brasileira, simplesmente se perde — vira piada chata.
Cenas e citações que todo francês conhece
Algumas cenas viraram referência cultural massiva:
« Okay » — Jacquouille adota a palavra americana após ver alguém dizer e passa a usá-la em todo contexto possível.
O incêndio do colete. Godefroy queima um colete de pele numa lareira pensando ser um animal selvagem hostil.
« Que cette créature... est repoussante ! » — Godefroy reagindo a uma assistente moderna.
O telefone. Jacquouille assustado ao ver um telefone tocar.
Se você assistir e gostar, tem sequência (Les Couloirs du Temps, 1998) e uma terceira parte (La Révolution, 2016) — a primeira é a melhor.