Yves Saint Laurent: o francês que reinventou o guarda-roupa feminino
Le Smoking, o vestido Mondrian, o safari look. Por que o estilista nascido na Argélia em 1936 segue, vinte anos após sua morte, ditando como mulheres se vestem.
Você pode não conhecer Yves Saint Laurent. Mas se você já usou um terno feminino, um trench-coat, uma camisa transparente sobre soutien, ou uma bota de cano alto sobre vestido curto — você está usando algo que YSL inventou. Era ele que estava na origem.
O menino de Oran
Yves Henri Donat Mathieu-Saint-Laurent nasceu em 1936 em Oran, na Argélia francesa. Família abastada — pai gerente de seguros, mãe socialite. Tímido, magro, sensível. Aos 14 anos, já criava roupas para a mãe e as irmãs em casa.
Aos 17 anos, ganhou o concurso da revista International Wool Secretariat com um vestido de coquetel. Aos 18, deixou a Argélia para Paris. Foi apresentado a Christian Dior pelo redator-chefe da Vogue francesa, e contratado imediatamente como assistente.
Quando Dior morreu em 1957, sem aviso, a casa precisou de um novo diretor artístico. YSL tinha 21 anos. Foi nomeado. Sua primeira coleção (Trapèze, primavera-verão 1958) foi recebida como uma revolução — silhuetas leves, ombros desafogados, novo movimento feminino.
A própria maison
Em 1960, YSL foi convocado pelo exército francês para a guerra da Argélia. O estresse o quebrou — passou três semanas em hospital psiquiátrico, foi dispensado. Quando voltou, descobriu que Dior havia contratado um substituto.
Em 1962, com o apoio financeiro do empresário americano Pierre Bergé (que se tornaria seu companheiro de vida e parceiro de negócios), YSL abriu sua própria maison em Paris.
A partir daí, em vinte anos, ele transformou a moda feminina. Cada coleção introduzia uma silhueta nova que virava ícone:
1965: o vestido Mondrian, com retângulos coloridos inspirados no pintor neerlandês. Foto de capa da Vogue, virou uma das peças de moda mais reproduzidas do século.
1966: Le Smoking, o terno preto feminino. Antes dele, uma mulher de terno num restaurante chique de Paris era considerada provocação social. Depois de YSL, virou elegância.
1968: o safari look (calça e jaqueta beges, cintura marcada, botas) que sai do quartel para a rua. Apropriação de uniforme militar como peça de moda feminina.
1976: coleção Ballets Russes, manequins em saias volumosas coloridas inspiradas na Rússia czarista. Marcou o retorno da opulência depois das silhuetas geometrizadas dos anos 60-70.
O homem por trás
YSL foi um pioneiro fora das passarelas também. Em 1971, ele posou nu para perfumar Pour Homme — primeiro grande estilista a fazer auto-divulgação dessa forma. Em 1971, lançou também a primeira boutique de prêt-à-porter (Rive Gauche), democratizando a alta costura.
Era homossexual num momento em que ainda não se falava abertamente. Pierre Bergé, seu companheiro até 1976 e parceiro de negócios até o fim, foi a pessoa que estabilizou sua vida. Mas YSL bebia, usava drogas, sofria de depressão crônica. Vários colapsos, várias hospitalizações.
Aposentou-se em 2002 com um discurso histórico no Centro Pompidou: "J'ai eu la chance d'avoir tout au long de ma vie le seul, le vrai, le grand amour de la beauté". Morreu em 2008. O catálogo da maison, vendido a Pierre Bergé, foi leiloado para criar a Fundação Pierre Bergé–Yves Saint Laurent, com dois museus: um em Paris (avenida Marceau, onde ficava o ateliê), outro em Marrakech (ao lado do Jardin Majorelle, que Bergé e YSL salvaram da demolição).
A marca hoje
A maison Saint Laurent (foi rebatizada em 2012 para "Saint Laurent Paris" sob direção artística de Hedi Slimane, depois voltou para "Saint Laurent") faz hoje parte do grupo Kering, junto com Gucci, Bottega Veneta e Balenciaga. Diretor artístico atual: Anthony Vaccarello, desde 2016.
A maison faturou cerca de 3,2 bilhões de euros em 2023. A linha de beleza/perfumaria Yves Saint Laurent Beauté é gerida separadamente pela L'Oréal.