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Teatro

Cyrano de Bergerac: a peça de Edmond Rostand que todo francês conhece de cor

28 de dezembro de 1897. O Théâtre de la Porte Saint-Martin aplaude por uma hora. Nasce a peça em verso mais amada da França — e a palavra panache ganha sentido moderno.

Por Prof Kelly · 28 de abril de 2026 · 8 min de leitura

Se você pergunta a um francês qual é a peça nacional, ele vai hesitar entre Molière e Racine — depois vai dizer Cyrano. Porque é a única que ele aprendeu a recitar de cor na escola e que ainda lembra trinta anos depois. Uma peça em alexandrinos rimados, escrita em 1897, sobre um espadachim com um nariz grande demais que ama a mulher errada. E que continua arrancando lágrimas.

Quem foi Edmond Rostand

Edmond Rostand nasceu em 1868 em Marselha, numa família burguesa do sul. Subiu para Paris, estudou direito por obrigação familiar e literatura por amor. Casou-se aos 22 anos com a poetisa Rosemonde Gérard. Escreveu várias peças menores nos anos 1890 sem grande sucesso.

Em 1897, aos 29 anos, terminou Cyrano de Bergerac. Estava convencido de que ia fracassar. Antes da estreia, pediu desculpas ao ator principal, Constant Coquelin, por tê-lo metido naquela situação. Coquelin, que tinha 56 anos e era a maior estrela do teatro francês, sorriu e foi para o palco.

Na noite da estreia, no 28 de dezembro de 1897, o público aplaudiu durante uma hora. Em pé. Sem parar. Rostand foi condecorado com a Legião de Honra ainda no camarim, no mesmo intervalo. Aos 33 anos, foi eleito para a Académie française — o membro mais jovem da história até então. Morreu em 1918 da gripe espanhola. Sua única outra obra realmente lida hoje é L'Aiglon (1900), sobre o filho de Napoléon.

Quem foi o verdadeiro Cyrano

O Cyrano da peça é inspirado num personagem real: Savinien de Cyrano de Bergerac (1619-1655), espadachim, escritor e livre-pensador francês do século XVII. Ele realmente existiu, realmente tinha o nariz grande, realmente serviu na Guerra dos Trinta Anos, e realmente escreveu textos de ficção científica avant-garde sobre viagens à Lua e ao Sol (publicados postumamente).

Mas o Cyrano histórico não estava apaixonado por nenhuma Roxane. Não morreu de uma viga caindo na cabeça. E não tinha amigo nenhum chamado Christian de Neuvillette. Rostand pegou o personagem, a época (Paris de 1640), a profissão, o nariz — e inventou o resto.

A história em 30 linhas

Paris, 1640. Cyrano é um cadete da guarda gascão: poeta, espadachim, livre-pensador, e dotado de um nariz extraordinariamente grande. Ele ama secretamente sua prima, a bela Roxane. Mas tem certeza de que ela jamais o amará — por causa do nariz.

Roxane confia a Cyrano um segredo: ela está apaixonada por Christian de Neuvillette, um cadete bonito que acaba de chegar ao regimento. Pede a Cyrano para protegê-lo.

Cyrano descobre que Christian é bonito mas burro como uma porta — incapaz de alinhar duas palavras românticas. E que Roxane quer cartas de amor brilhantes. Então Cyrano propõe um pacto: ele vai escrever as cartas, Christian vai assiná-las. Christian aceita.

A famosa cena do balcão (Ato III): Christian, embaixo da varanda de Roxane, tenta improvisar e fracassa. Cyrano, escondido na sombra, sussurra as falas para Christian repetir. Quando Christian congela, é Cyrano quem termina o discurso, falando diretamente para a mulher que ama, fingindo ser outro homem.

Roxane se casa com Christian às pressas. Os dois vão para o cerco de Arras na guerra. Christian descobre a verdade e, num impulso, expõe-se ao fogo inimigo — morre. Roxane, viúva, entra num convento e passa quinze anos sem saber.

Quinze anos depois, Cyrano vai visitá-la no convento, como faz toda semana. Está mortalmente ferido — uma viga atirada de uma janela por inimigos políticos. Sentado no banco, lê em voz alta a última carta de Christian a Roxane. A luz vai caindo. Roxane percebe que ele lê de memória. E que a voz é a do balcão. Cyrano confessa, e morre nos seus braços. Última palavra: "mon panache".

Cena da peça Cyrano de Bergerac de Edmond Rostand
Cyrano: poeta, espadachim, mau pretendente. O herói que perde a moça mas ganha a posteridade.

O que ficou na língua francesa

A peça deixou expressões que entraram no francês cotidiano:

"Faire son Cyrano" — falar em nome de outra pessoa numa situação romântica. Ainda usado.

"Avoir du panache" — ter brio, estilo, coragem com elegância. Panache, literalmente, é a pluma branca no chapéu do cadete. Cyrano transformou a palavra em conceito.

"Une tirade" — um monólogo brilhante. A tirade des nez de Cyrano, no Ato I, é a tirada por excelência. É a cena em que ele responde a um marquês que zombou de seu nariz, listando vinte maneiras melhores e mais espirituosas de insultá-lo. Decorada pelos alunos franceses até hoje.

"Ah! non! c'est un peu court, jeune homme!" — primeira fala da tirada. Frase-marca, citada em conversas para criticar uma observação superficial.

Onde ver Cyrano hoje

Cinema: a referência absoluta é a versão de Jean-Paul Rappeneau de 1990, com Gérard Depardieu num papel histórico. Indicada a 5 Oscars (ganhou um). Disponível na maioria das plataformas francesas. Subtitle em português brasileiro existe em DVD.

Versão recente: Cyrano (2021), de Joe Wright, com Peter Dinklage — adaptação musical livre, em inglês. O nariz vira a baixa estatura, o que muda o sentido mas conserva a estrutura emocional.

Teatro ao vivo: Cyrano está sempre em cartaz em Paris. A Comédie-Française mantém uma produção alternada na temporada. Verifique também o Théâtre Marigny, o Théâtre du Châtelet, e o festival d'Avignon no verão.

Texto integral: em domínio público. Disponível gratuitamente no Project Gutenberg (FR). Em PT-BR, a tradução clássica é a de Carlos Porto Carrero (1907), refinada por Fábio Fonseca de Melo (Editora 34). Ler em verso alexandrino é difícil no começo — mas é a única forma de sentir o ritmo da peça.

Por que ainda funciona

Cyrano tem mais de 130 anos, está em verso clássico, fala de uma guerra do século XVII, e mesmo assim continua emocionando plateias adolescentes. Por quê?

Porque é a peça sobre a distância entre o que somos e o que aparentamos ser. Cyrano é brilhante e feio. Christian é bonito e oco. Roxane é inteligente mas se deixa enganar pelos olhos. A peça inteira é a anatomia desse equívoco — e do dilema moderno, ainda agora, de quem fala primeiro com o rosto antes de falar com a alma. As redes sociais não mudaram isso. Só amplificaram.

E porque, no final, Cyrano escolhe morrer sem o premio, segurando apenas o seu panache. É o herói que perde, mas que ensina o que sobra quando tudo falha: a dignidade do estilo.

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