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Dança

Les Twins: os irmãos franceses que reinventaram o hip-hop mundial

Laurent e Larry Bourgeois, gêmeos de Sarcelles. Beyoncé como mãe artística, World of Dance como consagração, e um estilo — o new style francês — que virou referência global.

Por Prof Kelly · 21 de abril de 2026 · 6 min de leitura

Eles têm a mesma cara. Os mesmos cabelos longos. As mesmas pernas longas. E movem-se em sincronia como se compartilhassem o mesmo sistema nervoso. Os irmãos Bourgeois — Les Twins — saíram de um bairro de banlieue parisiense para virar referência absoluta da dança hip-hop no mundo inteiro. E continuam dançando em francês.

Quem são os gêmeos de Sarcelles

Laurent e Larry Nicolas Bourgeois nasceram em 6 de dezembro de 1988 em Sarcelles, na região parisiense, em uma família grande — são o nono e o décimo de uma fratria de quinze filhos. Mãe francesa, pai senegalês. Cresceram dançando juntos no salão de casa, imitando coreografias de Michael Jackson, e depois absorvendo o hip-hop dos anos 90 — sem nunca ter feito uma aula formal de dança na vida.

Aos 15 anos, juntaram-se ao crew Criminalz, do bairro. Aos 18, dançavam em vídeos de clipes franceses. Aos 21, em 2009, foram contratados como dançarinos da turnê mundial de Beyoncé (I Am... Tour). É o ponto de virada. Beyoncé os adotou — ela chama os dois publicamente de "my babies" desde então — e os contratou novamente nas turnês Mrs. Carter Show (2013), On The Run (2014, com Jay-Z) e Formation (2016).

O que é o new style

O estilo dos Twins é uma das vertentes do que se chama new style — uma família de dança urbana surgida na França nos anos 90-2000, herdeira do hip-hop americano dos anos 80, mas marcada por uma sensibilidade europeia: musicalidade fina, isolations no quadril, freezes súbitos, fluidez nos braços.

O que distingue os Twins é a sincronia gemelar. Eles podem improvisar (e improvisam o tempo todo: 90% de cada apresentação é livre, não coreografada) e mesmo assim chegam a movimentos idênticos no mesmo milissegundo. É um fenômeno que dançarinos profissionais do mundo inteiro tentam explicar e não conseguem. Os próprios irmãos dizem em entrevistas que "sentem" o que o outro vai fazer — e que aprenderam a dançar olhando-se um ao outro.

Les Twins, Laurent e Larry Bourgeois, dançando
Les Twins: a sincronia gemelar que não se ensina em escola de dança.

World of Dance: a consagração

Em 2017, Les Twins entraram no programa World of Dance, da NBC, apresentado por Jennifer Lopez e Derek Hough. Eram favoritos do público desde o primeiro episódio. Na final, em julho de 2017, derrotaram a coreógrafa Eva Igo numa noite que ainda hoje aparece nas listas de "melhores momentos da TV americana" da década.

O prêmio: 1 milhão de dólares. E, mais importante, uma visibilidade global. A coreografia final deles, sobre uma versão remixada de Faded de Alan Walker, tem hoje mais de 150 milhões de visualizações no YouTube oficial do programa.

Por que assistir Les Twins quando se aprende francês

Em primeiro lugar, porque eles falam francês. As entrevistas longas — em festivais, em backstage de programas franceses como Quotidien de Yann Barthès, no programa C à vous da France 5 — são uma fonte rara de francês das banlieues real, contemporâneo, com gírias atuais. Eles falam rápido, usam expressões de argot que você nunca encontra num livro didático: "frérot", "vas-y", "wesh", "genre" como muleta de hesitação.

Em segundo lugar, porque as biografias deles — fratria de quinze, banlieue parisiense, mãe que cria os filhos sozinha, dança como saída — são uma janela para uma realidade social francesa que os turistas em Paris nunca cruzam. O bairro de Sarcelles tem 60% de habitantes de origem imigrante (Norte da África, África subsaariana, Antilhas). É uma França que falar francês não te dá automaticamente acesso. Mas as entrevistas dos Twins, sim.

Em terceiro lugar, porque movimento e idioma se ensinam mútuos. Assistir a uma performance dos Twins enquanto se lê a transcrição em francês treina o ouvido para os ritmos da fala oral, no mesmo movimento em que treina o olho para entender uma cultura.

Onde ver

YouTube: o canal oficial @OfficialLesTwins reúne performances, entrevistas e bastidores. Comece pela final do World of Dance 2017.

Instagram: @officiallestwins publica clipes curtos e teasers de apresentações ao vivo.

Beyoncé: qualquer turnê dela entre 2009 e 2016 inclui aparições dos Twins. A Homecoming (2019) na Netflix, gravada no Coachella, mostra os dois dançando em formação com a banda inteira.

Festivais: os Twins continuam fazendo workshops e battles ao redor do mundo. Já vieram ao Brasil várias vezes — no Rio, em São Paulo, em Recife. Vale acompanhar o Instagram para ver datas confirmadas no Brasil.

Uma palavra final

Há uma fala curiosa do Larry numa entrevista a Yann Barthès em 2018. Yann perguntou como era possível eles improvisarem e ainda assim ficarem sincronizados. Larry respondeu, em francês: "On ne fait pas la même chose. On ressent la même chose en même temps. C'est différent." ("A gente não faz a mesma coisa. A gente sente a mesma coisa ao mesmo tempo. É diferente.")

É uma resposta que diz mais sobre dança — e sobre irmãos — do que qualquer manual.

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