Paris em 5 dias: roteiro de uma brasileira que conhece a cidade de dentro
O que os guias turísticos não dizem: bairros, restaurantes, transporte e o francês que muda tudo na recepção.
Não é mais um roteiro genérico. É o que eu — brasileira, professora de francês, com Paris no currículo — diria pra uma amiga que vai pela primeira vez. Bairros que valem a pena, lugares onde os turistas pagam o dobro, e o francês mínimo que muda tudo na recepção.
Dia 1 O coração antigo: Île de la Cité e Le Marais
Comece onde Paris começou. A Île de la Cité é uma ilha no meio do Sena, e foi o primeiro pedaço habitado da cidade, ainda nos tempos dos gauleses. Hoje você visita a Notre-Dame por fora (a obra de restauração depois do incêndio de 2019 ainda está em fase final) e a Sainte-Chapelle, que para mim é mais impressionante: uma capela do século XIII com 15 metros de vitrais coloridos do chão ao teto. Vai cedo, antes das 10h, ou pega fila enorme.
Atravessando a ponte pra margem direita, você cai no Le Marais — o bairro mais charmoso de Paris, onde os prédios medievais sobreviveram às reformas do Haussmann no século XIX. Almoço obrigatório: falafel da rue des Rosiers, antiga rua do bairro judeu. Fila de 20 minutos no L'As du Fallafel ou no Mi-Va-Mi, mas vale: é considerado o melhor falafel da Europa.
À tarde, faça uma volta pelo Centre Pompidou e termine na Place des Vosges, a praça mais antiga e simétrica da cidade. Sente num banco, observe os parisienses lendo livro no parque. É o tipo de cena que você vai sentir saudade depois.
Dia 2 O grande clássico: Louvre, Tuileries, Champs-Élysées
Dia inteiro no eixo histórico monumental. Comece pelo Louvre logo na abertura (9h), porque depois das 11h vira humanidade espremida na frente da Mona Lisa. Compre o ingresso online com horário marcado (cerca de 22 euros).
Não tente ver tudo. O Louvre tem 35.000 obras expostas e ninguém digere isso. Escolha 2 ou 3 alas — estatuária grega, pintura italiana do Renascimento, apartamentos de Napoléon III. Em 3 horas você sai satisfeita.
Saindo do Louvre, atravesse o jardim Tuileries até a Place de la Concorde e suba a Champs-Élysées até o Arco do Triunfo. A avenida é pra fotografar e ir embora — as lojas são caríssimas e turísticas. A subida ao topo do Arco custa 13 euros e dá uma vista 360º melhor que a da Tour Eiffel.
Final de tarde: vá pra Trocadéro. Às 22h em ponto (verão), a Tour Eiffel cintila por 5 minutos com luzes brancas. Cartão postal da viagem inteira.
Dia 3 A Paris dos artistas e dos imigrantes: Montmartre e Belleville
A Paris dos cartões postais não é a única. Montmartre é o bairro do Renoir, do Picasso, do Toulouse-Lautrec — uma colina íngreme no norte da cidade. Suba cedo, antes das 10h. A Sacré-Cœur é grátis, e os degraus na frente são o melhor pôr do sol gratuito da cidade.
Cuidado com dois golpes: os retratistas que abordam dizendo «vou desenhar você de graça» e depois cobram 50 euros, e o pessoal das pulseirinhas. Diga « Non, merci » firme e siga.
À tarde, vá de metrô até Belleville — bairro multicultural no leste, popular, com a maior concentração de street art da cidade. Jante num vietnamita ou chinês de Belleville. Um bo bun sai por 12-15 euros.
Dia 4 Versalhes: o dia inteiro na realeza
Versalhes merece um dia inteiro. Pegue o RER C de manhã cedinho. Compre ingresso online (cerca de 21 euros, ou 32 com os Trianons inclusos). A bilheteria local pega filas de 2 horas no verão.
O complexo tem três partes: o Castelo (a Galerie des Glaces é obrigatória), os Jardins (700 hectares), e os Trianons (Grand e Petit Trianon, mais o Hameau de la Reine — a fazenda fake que Maria Antonieta mandou construir pra brincar de pastora).
Almoço: não almoce dentro do complexo. Os preços são absurdos. Leve sanduíche ou almoce na cidadezinha de Versalhes antes de entrar (18-22 euros o menu do dia).
Dia 5 Saint-Germain e Quartier Latin: a Paris intelectual
Último dia, ritmo mais lento. Comece pelo Musée d'Orsay, que pra mim é mais agradável que o Louvre — antiga estação de trem com a maior coleção de impressionistas do mundo. Em 2 horas você cobre tudo que importa. 16 euros.
Almoço picnic nos Jardins du Luxembourg. Compre uma baguete numa boulangerie, queijo numa fromagerie, vinho num Monoprix. Total: 15 euros, almoço-sonho.
À tarde, ande pelo Saint-Germain-des-Prés. O Café de Flore e o Les Deux Magots eram a sala de visitas de Sartre, Beauvoir, Hemingway, Camus. Hoje são caríssimos, mas vale uma vez na vida.
Jantar de despedida: bistrô de bairro autêntico no rive gauche. Menu por 28-35 euros: entrada, prato, sobremesa. É o Paris que vai ficar na memória.
Dicas práticas que ninguém te conta antes
Transporte: compre o Navigo Easy ou, se for ficar a semana, o Navigo Découverte semanal (cerca de 31 euros, ilimitado). O metrô abre 5h30 e fecha 1h da manhã (2h em fim de semana).
Pagamento: cartão sem contato funciona em 95% dos lugares, inclusive padarias. Leve uns 50 euros em dinheiro.
Tomada: tipo C/E, redonda, 220V. Adaptador obrigatório. Compre antes de viajar.
Horários: almoço 12h-14h, jantar 19h30-22h30. Entre 14h e 19h30, restaurantes fechados. Planeje.
O francês muda tudo. Parisiense atende mal turista que não tenta uma palavra sequer em francês. « Bonjour, parlez-vous anglais ? » antes de soltar a pergunta em inglês muda a recepção completamente.